A FÉ
O homem tem sua fé
abalada quando menos espera...
passa por acontecimentos
que mexem com seu subconsciente,
demonstrando dúvidas
por assuntos em que antes
tinha certeza absoluta.
Marcelo
é bombeiro há
treze anos. Militar regrado,
não deixa-se abater
por pequenas coisas; ama
sua profissão, sua
família e seus bens
materiais. Trabalha com
orgulho e vontade, arrancando
elogios até de colegas
desmotivados.
Mas, com a experiência
que os anos trouxeram, Marcelo
se viu um tanto revoltado:
“Como é possível
tanta injustiça neste
mundo?”
“Qual é
o critério de Deus
para o desenrolar da vida
humana?”
Tudo começou
com um atropelamento, num
domingo de manhã.
Um menino de 7 anos colhido
na calçada por um
motorista que perseguia
furiosamente um outro veículo
que, ao que parece, fechara-o
algumas esquinas antes.
A criança teve morte
instantânea. A cena
do corpo não era
tão angustiante (já
havia participado de outras
parecidas); o que fez Marcelo
tremer foi a imagem da mãe
com o filho morto nos braços...
a expressão de dor
sem histerismo, silenciosamente
perturbadora mexeu com o
equilíbrio do bombeiro.
Marcelo chegou no quartel
e seguiu direto para o alojamento.
Chorou, e chorou, e chorou...
lembrava de seu filho, que
naquele momento deveria
estar na escola; não
parava de pensar naquela
mãe, com seus olhos
suplicando a morte para
ela também.
Algum tempo
depois, nova ocorrência:
num ajuste de contas entre
traficantes, um deles havia
sido alvejado a tiros de
forma impiedosa –
dois projéteis na
cabeça, dois no tórax,
um no abdome e mais dois
nos braços. Detalhe:
a vítima encontrava-se
plenamente consciente.
O traficante de drogas chegou
ao hospital conversando;
salvou-se, e depois de três
semanas estava nas ruas
novamente.
Marcelo odiou profundamente
aquele homem. Todas as vezes
que passava por aquele lugar
avistava o traficante; o
bombeiro controlava seus
ímpetos de descer
da viatura e enforcá-lo
cruelmente com as próprias
mãos, até
que visse a luz esvair-se
dos olhos do bandido.
“De fato,
Deus não existe!”
“É impossível
que Deus exista!!!”
Marcelo
mudou completamente. Já
não tinha tanto prazer
de trabalhar no Corpo de
Bombeiros! Ficou desleixado,
absorto na maior parte do
tempo, reclamando de tudo
e de todos.
Não encontrava ânimo
para instruções
e treinamentos; todos os
atendimentos eram motivos
de revolta:
“- Como este imbecil
conseguiu ser atropelado
nesta rua deserta?”
“- Se este velho idiota
estivesse em casa, não
teria caído e quebrado
a perna...”
“- Burra! Sai de casa
e esquece a panela no fogo!”
Tudo caminhava neste pé,
quando mais uma vez o destino
aprontou com Marcelo:
Noite.
Fim-de-semana. Cidade vazia.
Marcelo, motorista da viatura
de resgate, desloca-se em
velocidade e com sirene
ligada para uma suspeita
de parada cárdio-respiratória;
avançava por uma
rua escura quando, de repente,
avistou na calçada
à sua esquerda uma
mulher agitando freneticamente
os braços. Diminuiu
a marcha, freando o carro
aos poucos, quando surge
à sua frente, vindo
correndo da direita, um
menino, de aproximadamente
7 anos.
Brecou. Com o susto, a criança
estancou, paralisada; uma
mulher saiu da casa logo
em seguida, assustada, abraçando
o filho.
A mulher que havia avisado
Marcelo não estava
mais lá... sumira.
Um arrepio tomou conta do
corpo do bombeiro. Seu companheiro
ao lado perguntava como
ele conseguira ver a criança
a tempo; Marcelo não
dizia nada. Só conseguia
pensar em seu filho, fitando
a mulher que abraçava
o menino.
Seguiu seu destino, para
a suspeita de parada cárdio-respiratória.
Um anjo!
Só poderia ter sido
um anjo que o avisou!
“De
fato, é possível
que Deus exista.”
Fernando
Dimitri
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de 2070
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